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Imitar e desejar

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Entre duas imitações

Nunca contei para ninguém enquanto fazia o doutorado, mas em parte ele nasceu de uma propaganda do mítico celular Nokia N95 que eu via toda semana no aeroporto de Congonhas. Não comprei o celular. Mas sou eternamente grato a ele, não tanto pelo doutorado, mas principalmente por ter me ajudado a entender o quanto eu não era especial.

Em 2008, ao mesmo tempo em que ia a São Paulo dar aulas de literatura, eu começava a estudar seriamente a teoria mimética de René Girard. Uma das coisas que diferencia a teoria mimética é que, segundo Girard, ela já existe nas grandes obras da literatura. Girard diz que apenas deu uma organizada nas intuições dos escritores.

 

A principal dessas intuições pode parecer escandalosa e óbvia ao mesmo tempo: nós imitamos os desejos dos outros. Pode parecer escandalosa porque gostamos de pensar que somos indivíduos autônomos, que no fim da vida vamos cantar como Frank Sinatra: I did it my way. Óbvia porque… na era dos influencers, é preciso mesmo explicar?

Porém, o primeiro pulo do gato está em você reconhecer que você mesmo é imitador. Daí que, voltando, aquela intuição pareça escandalosa: “eu não sou imitador, mas é óbvio que os outros são”.

(Insiro um parêntese para o leitor meditar a respeito e, se não estiver escandalizado, voltar ao texto. Vale observar: se o leitor vier com ressalvas, “eu sou imitador, certo, mas os outros são mais…”, precisa voltar ao ponto de partida. Se ele achar que “os outros seguem influencers, eu sigo pessoas sérias que me ensinam coisas importantes”… Sim, eu sei, o caminho pode ser longo…)

Vamos desenvolver: você deseja algo porque outra pessoa também deseja, porque outra pessoa tem, porque outra pessoa parece plena e maravilhosa por ter aquele algo. E outra grande intuição, já contida no que acabo de dizer, é que essa outra pessoa, que Girard chama de “modelo” ou “mediador”, vem antes da coisa que você deseja, que é ela que mostra para você o que você quer, e que aquilo que você quer, mesmo, é entrar no mundo dela, é identificar-se com ela. Poder dar nela um tapinha nas costas e conversar como se vocês dois se entendessem.

No aeroporto de Congonhas, vidrado nessa teoria, eu tirava a cara do livro e olhava o imenso cartaz de uma pessoa hiperconectada e eficiente, que com certeza nunca tinha perdido um prazo, usando um celular Nokia N95. Aliás, se você não sabe o que era um Nokia N95, vou dizer que vale a pela dar uma googlada. Tente imaginar como foi se deparar com o primeiro smartphone superpoderoso. O primeiro smartphone capaz de gravar um vídeo que você de fato aguentaria ver por mais do que alguns segundos.

Quando eu voltava a cara para o livro, que era uma coletânea de ensaios intitulada Oedipus Unbound, relia sua primeira frase:

O desejo não é deste mundo. É isso que Proust nos mostra em seu melhor: é para entrar em outro mundo que se deseja.

Ali estava eu, até ganhando um bom dinheiro para falar de coisas que eu amava, mas sentindo que, se eu tivesse um Nokia N95, de algum modo poético e incompreensível eu estaria mais realizado.

Sem nem falar que eu já estava ali, no saguão de Congonhas. No saguão do aeroporto mais movimentado do Brasil, na cidade mais movimentada da América Latina. Ter aquele produto de luxo, que era anunciado para aquele público, já seria um passo além. Estar ali — ter de estar ali por obrigação profissional — era ter “vencido na vida”; estar ali e ter um Nokia N95 seria pertencer à elite secreta que governa o mundo.

Só que, voltando ao Rio de Janeiro, longe daquele saguão cheio de gente, longe das pessoas andando com ar concentrado, resolvendo coisas importantes enquanto aguardavam seus aviões, longe do portal para outro mundo que era a propaganda do Nokia N95, o desejo por aquele telefone arrefecia completamente. Na verdade, eu só queria mesmo um celular que também tocasse mp3, para não precisar andar com duas engenhocas. E o Nokia N95 era bem caro.

Eram aquelas pessoas de Congonhas, junto com a pessoa do cartaz (na minha lembrança, um jovem negro que transmitia força e um futuro inevitavelmente brilhante), que me faziam desejar estar no mundo delas, ir além do mundo delas; perto delas, eu as imitava, eu queria até superá-las.

Longe delas, eu queria entender o desejo e queria escrever. Girard foi um guia. Não comprei o Nokia N95: fiz mestrado e doutorado em torno de René Girard, traduzi livros de René Girard, me apresentei em congressos internacionais sobre a obra de René Girard, tudo para ver o que Girard via e, por tabela, aquilo que os grandes autores viam. Não deixei de ser imitador. Apenas escolhi um modelo diferente, e parti em outra jornada, com outros obstáculos (que aliás me levaram a muitos outros aeroportos).

Essa foi a primeira lição: o modelo vem antes do desejo. Por isso, até, quando perguntam onde entra a liberdade na teoria mimética, a resposta é simples: é verdade, seremos todos imitadores, mas podemos escolher nossos modelos.

(Talvez com isso o leitor fique menos escandalizado.)

Influencers dos séculos passados

Em seu primeiro livro, Mentira romântica e verdade romanesca, publicado em 1961, Girard estuda a história do desejo a partir de cinco grandes autores: Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski, e Proust.

As obras mais conhecidas dos três primeiros falam de personagens que são de certa maneira guiados por influencers.

  • Dom Quixote, cuja primeira parte foi publicada por Cervantes em 1605, trata de Alonso Quijano, que lê livros de cavalaria e decide imitar os cavaleiros, especialmente Amadis de Gaula, o personagem mais conhecido da época.
  • O vermelho e o negro, de Stendhal, conta a história de um jovem chamado Julien Sorel. Sorel é o filho metido a intelectual de um serralheiro. Seu herói é Napoleão Bonaparte. Mas, como Sorel não é militar, só lhe resta seduzir mulheres vulneráveis por pura ambição. Numa das minhas cenas favoritas, quando a mais badalada patricinha de Paris se oferece para Sorel, ele, que é apenas o secretário do pai dela, não sabe o que fazer. Ele nunca tinha nem imaginado ter uma oportunidade assim. No escritório em que está quando recebe a mensagem da moça, ele vê o busto do cardeal Richelieu, que duzentos anos antes tinha sido primeiro-ministro da França. Então Sorel entende que Richelieu não teria perdido aquela oportunidade.
  • Madame Bovary, de Flaubert, trata de uma mulher, Emma, que se casa para sair da roça para uma cidade pequena, e, uma vez casada, continua querendo viver as aventuras amorosas que leu nos livros. Como o marido não proporciona isso, ela arruma amantes. Numa cena famosa, um desses amantes diz a ela, para convencê-la a fazer sexo dentro de uma carruagem: “mas isto se faz em Paris!”.

Nesses três casos, está claro que o modelo veio antes do desejo. Amadis de Gaula, o cavaleiro, fez com que Alonso Quijano se vestisse de cavaleiro e saísse pela Espanha montado num jumento. Julien Sorel seduziu mulheres para reproduzir no “amor” as conquistas de Napoleão e de Richelieu. Emma Bovary primeiro leu seus romances, depois escolheu seus amantes, e bolou altos esquemas para viver como queria.

O aborto do desejo

É verdade que nenhum desses personagens é um grande exemplo de ser humano (não, nem Dom Quixote: ele é maluco, e reconhece isso no final). Porém, eles não se contentaram com o mundo de fantasia.

Essa afirmação é óbvia, mas ela fica muito mais interessante quando tentamos trazê-la para o mundo de hoje. Porque a tecnologia pode ser maravilhosa. Aliás, achamos que ela é maravilhosa por retirar vários obstáculos. Por resolver problemas instantaneamente. E um efeito disso é que é muito fácil ficar no mundo da fantasia.

Hoje, Dom Quixote poderia ir a um congresso de imitadores de cavaleiros, reencenar batalhas, discutir na internet os melhores capacetes — e talvez sua esposa ainda achasse bom que ele fizesse isso em vez de ficar fumando maconha como aquele amigo dele.

Sorel, também, poderia ler tudo sobre Napoleão em PDFs gratuitos e pirateados. Aliás, bonito, inteligente, e naturalmente arrogante, ele teria imaginado desde sempre que poderia ter seduzido a patricinha mais badalada — e, juntos desde a primeira noite, a única pergunta seria quem ia se entediar com o outro primeiro.

Emma Bovary poderia entrar num site de adultério e em horas, quiçá minutos, realizar todas as suas fantasias.

Os obstáculos fortaleciam o desejo. Antigamente havia a “sorte” de muitos obstáculos estarem fora de nós, por isso a oportunidade de uma gratificação instantânea que nos deixasse no mundo da fantasia era mais rara. Sim, você podia ficar lendo o dia todo, mas entre passar o dia tendo acesso apenas a papel e tinta e ter acesso a pixels luminosos que podem assumir as formas mais atraentes…

Hoje você pode continuar escolhendo seu modelo, seu influencer, mas o fato mesmo de ele se apresentar como “uma pessoa real” também permite que você fique acompanhando a vida dele como se estivesse lendo um romance. E você pode fazer isso o tempo todo em que estiver acordado.

Se você se lembra da frase de Girard que citei no começo — “é para entrar em outro mundo que se deseja” —, então pense assim: ler um romance é uma forma branda de “entrar em outro mundo”, acompanhar o dia-a-dia de uma pessoa no Instagram é uma forma branda de “entrar em outro mundo”. Assim como você sente que o Mal foi derrotado depois de ver um filme de aventura, você também pode se contentar em admirar e em ver esse outro mundo que é perpetuamente ofertado para você.

Agora, qualquer professor de roteiro vai dizer que toda história precisa de um obstáculo.

Ter a possibilidade de acompanhar zilhões de influencers superando os obstáculos deles pode fazer com que você esqueça o principal obstáculo, que infelizmente é o maior de todos — muito maior do que, como fazia Emma Bovary, atravessar um campo enlameado de madrugada: a sua própria inércia.

Hoje você pode querer estudar algo, obter todos os arquivos em minutos, e nunca estudar; dali a um minuto, pode ter outra ilusão de que possui alguma coisa, de que imitou algum modelo, porque nada é mais fácil do que ficar perto dele, acompanhando-o em tempo real.

Seria, em suma, como se você pudesse ficar para sempre no saguão do aeroporto de Congonhas, anônimo, contente só por estar ali, olhando a propaganda de um telefone que você nunca vai comprar, sem perceber que é isso que está acontecendo porque o saguão é um lugar ótimo, onde tudo é seguro e conveniente. Não há história, não há risco, não há drama. Você nem mesmo embarca num avião, não têm experiências para comparar, nem sequer descobre a imitação.

 

Pedro Sette-Câmara

Escritor, tradutor de quase cem obras e doutor em Literatura Comparada pela UERJ.

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