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Nelson Rodrigues e a arte do cancelamento

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Na minha clássica infância brasileira sem limites da década de 1980, o nome “Nelson Rodrigues” estava irrevogavelmente associado a “filmes de mulher pelada”, que a televisão sempre passava tarde demais para que alguma criança assistisse.

Já na adolescência, na década de 1990, Nelson Rodrigues passou a ser associado a outras transgressões: o relançamento de suas crônicas da década de 1960 me fez descobrir um dos poucos escritores que merecem o uso da palavra “verve” — uma graça, um estilo, uma vivacidade peculiares que, graças às invectivas contra os idiotas e os imbecis, logo seriam associadas ao “Imbecil Coletivo” de Olavo de Carvalho.

Essa verve pode ter rendido muitos imitadores.

Nelson Rodrigues de Nelson

Vejam como uma frase de 1968, como “em nossa época, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos”, poderia ter sido escrita hoje por tantas pessoas que se orgulham de uma suposta “arte de ofender”.

Se Nelson — nós brasileiros usamos o primeiro nome, os ingleses não chamam Charles Dickens de Charles, mas de Dickens; os argentinos não chamam Jorge Luís Borges de Jorge Luís, mas de Borges; agora, nós, brasileiros, chamamos Nelson Rodrigues de Nelson —, enfim, se Nelson tem algum direito à eternidade, não é tanto pelas crônicas, nem pelos filmes que acabam sendo mais lembrados pelas cenas de nudez, mas por seu teatro.

Isso eu percebi já não mais adolescente, mas só no novo milênio.

Comecei a suspeitar dessa grandeza quando vi, no teatro, O beijo no asfalto (escrita em 1960), com as jovens Alessandra Negrini e Fernanda Rodrigues nos papéis femininos, Marcelo Serrado como Arandir, e Tonico Pereira como Amado Ribeiro — com o perdão da rima, provavelmente o maior vilão do teatro brasileiro.

Vilão porque Ribeiro é um jornalista mestre na arte do que hoje é chamado de “cancelamento”, que é uma modalidade peculiar da boa e velha perseguição.

“Cancelamento” é um termo que surgiu nas universidades americanas: um palestrante é convidado, alguns alunos se dizem ofendidos por suas ideias e prometem fazer o maior barraco, a universidade decide cancelar o evento “por razões de segurança”.

Depois de alguns cancelamentos literais, qualquer pessoa perseguida na famosa “grande mídia” ou nas mídias sociais (qual a maior? Daí as aspas) passou a ser chamada de “cancelada”.

Um exemplo das universidades — um exemplo francês que acompanhei com interesse. De um lado, temos a filósofa Sylviane Agacinski, professora universitária, feminista da velha guarda, e também esposa de Lionel Jospin, ex-primeiro ministro, ex-presidente do Partido Socialista. De outro, os alunos da Universidade de Bordeaux, que provocaram o cancelamento de uma palestra dessa filósofa, que seria a fina flor da intelectualidade de esquerda francesa, porque, entre outros, ela julga que a lei não deve permitir a barriga de aluguel. Para ela, trata-se de uma “mercantilização” da gravidez. Cancelada: está se opondo ao “direito” de certas mulheres terem filhos.

Pronto. Dei esse exemplo para montar meu número. Com ele, vou revelar um dos grandes truques de Nelson.

O enredo de O beijo no asfalto é simples, e já contém aquilo que os mágicos chamam (em inglês mesmo) de misdirection, ou desvio da atenção: um homem é atropelado por um ônibus, e, morrendo, pede um beijo a Arandir, que foi socorrê-lo; o jornalista Amado Ribeiro testemunha a cena e, com a ajuda do delegado Cunha, usa os jornais para criar a história de que Arandir e o morto tinham um caso — o que, no Rio de Janeiro de 1960, era mais impactante do que seria hoje.

O beijo no asfalto é a história do cancelamento de Arandir.

Misdirection por quê?

Veja bem: temos um crime. Um homem é morto por um ônibus. Temos um cadáver e um culpado. Quando Arandir é levado à delegacia, no começo da peça, ele mesmo não entende o que está acontecendo. Diz: “Foi o lotação [o ônibus] que matou.

A peça inteira vai nos desviar do crime. (Com a grande ironia de que, no Brasil, atos homossexuais não eram criminalizados desde 1830 — isso, 1830 —, e só passaram a ser criminalizados no Código Penal Militar, de 1964, posterior à peça.)

Com falas entrecortadas, de frases curtas, incompletas, com cenas de intimidação interrompidas, rápidas, vamos ver como a acusação de homossexualidade adúltera vai arruinando a vida de Arandir.

E é muito, muito difícil manter a frieza e não se deixar levar pela locomotiva das acusações.

Um homem é morto por um ônibus, mas é a cara de Arandir que aparece no jornal no dia seguinte.

Amado Ribeiro logo cria um bordão: “Não foi o primeiro beijo! Nem foi a primeira vez!” Lembro de sair do teatro com a frase na cabeça, quando vi a peça pela primeira vez, em 2001. Amado Ribeiro, depois, consegue que o morto seja enterrado na ausência da viúva, o que “prova” o ressentimento dela contra o marido.

A história cresce.

A essa altura, Arandir já não tem mais emprego; logo, nem as pessoas mais próximas vão vê-lo da mesma maneira, e o desfecho — até porque só contei alguns detalhes da peça — eu deixo para quem quiser ler o texto ou, quem sabe, ver alguma adaptação para o cinema. A de Bruno Barreto, filmada em 1981, é excelente.

E agora, o truque de Nelson. Não, ele ainda não foi explicado.

Você ficou escandalizado com os alunos franceses capazes de cancelar uma filósofa porque estão “ofendidos” com uma posição que parece totalmente inofensiva? O leitor se escandaliza com o escândalo alheio. O beijo no asfalto tem a mesma estrutura: Amado Ribeiro fabrica escândalo com um beijo que, mesmo que seja esquisito naquele contexto, não é nada diante do homicídio.

Um homem é morto por um ônibus que fura um sinal, e a cidade inteira vai se comover com o beijo?

Perceber que a esquisitice do beijo nos interessa mais do que uma morte estúpida — porque o beijo é esquisito e um atropelamento é banal — é algo que faz parar para pensar.

Digamos até que seja algo que nos faça questionar nossas prioridades.

O truque é que o escândalo é um grande recurso para a misdirection.

Porque você também pode assistir à peça escandalizado não com a suposta homossexualidade de Arandir, mas com a pura cafajestice do acusador Amado Ribeiro. Você pode ficar preso entre os dois escândalos, ou pode assistir à peça com um mal-estar crescente.

Assim como pode agir como um aluno francês e ficar escandalizado… com os alunos franceses.

Em algumas traduções da Bíblia, o escândalo, do grego skándalon, aparece como a “pedra de tropeço”.

É isso que está acontecendo agora: o universitário se escandaliza com a filósofa, você se escandaliza com o universitário, Amado Ribeiro escandaliza os leitores de jornal, os espectadores se escandalizam com Amado Ribeiro… Tudo porque havia uma pedra de tropeço no meio do caminho.

Você estava calmo, não estava abalado por nada, e de repente não consegue mais pensar direito, a revolta está dentro de você.

Talvez até alguém tenha se escandalizado com os “filmes de mulher pelada” do começo do texto, e se perguntado como um autor supostamente respeitável — eu mesmo acho que Nelson é um autor universal como Sófocles e Shakespeare — poderia se envolver nessas coisas escandalosas.

E no entanto Nelson, o dramaturgo Nelson, que também era jornalista, está mostrando que você corre o risco de pular de escândalo em escândalo, de ter sua atenção desviada a cada vez que encontra um escândalo que parece maior do que o anterior (“O verdadeiro escândalo é esse Amado Ribeiro!” “O verdadeiro escândalo é ninguém se escandalizar com o atropelamento!”), enquanto um moribundo, estupidamente atropelado, talvez apenas peça misericórdia, e certamente fica sem ser compreendido.

Pedro Sette-Câmara

Escritor, tradutor de quase cem obras e doutor em Literatura Comparada pela UERJ.

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