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O que é a Jornada do Herói?

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Se você produz conteúdo na internet, provavelmente já se deparou com o chamado para que nos tornemos contadores de histórias.

Não é novidade que tal competência, quando aplicada a uma marca, pode tornar seu produto ainda mais atrativo, saboroso e fascinante, seja servindo ao marketing tradicional ou ao marketing digital. Altos e baixos, trajetórias e conflitos, sucessos e fracassos – uma boa história contém tudo isso e muito, muito mais.

Embora essa ideia pareça fácil em sua teoria, existe uma grande dificuldade em determinar como devemos desenvolver nosso storytelling. Não existe regra universal que defina como sua história deva ser transmitida, mas você sempre pode lançar mão de algumas estruturas que foram reproduzidas repetidas vezes e testadas à exaustão, e que obtiveram sucesso, quando executadas com a precisão devida.

A principal delas tem nome: Jornada do Herói. 

O que é a Jornada do Herói

É certo que você já tenha esbarrado em uma narrativa parecida com essa: existe um herói que personifica-se em um sujeito comum, com problemas comuns, que, por algum motivo inesperado, recebe um chamado para uma aventura. Logo em seguida, vê-se obrigado a sair de sua zona de conforto, abandonar seu mundinho ordinário e partir para uma nova jornada. Ao longo dela, nosso herói enfrenta inúmeras dificuldades, quase perde tudo, mas, ao final, consegue obter sucesso e retorna para casa – apenas para perceber que foi transformado em uma pessoa melhor. 

Familiar, não? Esse é o modelo por trás da Jornada do Herói, que está presente nas entrelinhas de produtos culturais dos mais variados, seja da indústria cinematográfica, em livros best-sellers, letras de música, peças teatrais e, claro, nas mais bem-sucedidas campanhas de marketing. Afinal, trata-se de uma estrutura clara e de fácil compreensão, que pode ser aplicada a todo tipo de tema.

O antropólogo Jospeh Campbell é considerado o grande precursor da Jornada do Herói como a conhecemos, e em seu livro “O Herói de Mil Faces” descreve o que ele chama de monomito, uma espécie de padrão que pode ser encontrado em muitas narrativas ao redor do mundo. Em seus estudos, Campbell percebeu que os mitos são, em sua esmagadora maioria, a mesma história contada e recontada infinitas vezes, com variantes igualmente infinitas. De acordo com o autor, essa estrutura está presente nas grandes histórias da humanidade, como, por exemplo, nas histórias de Jesus Cristo, Buda, Hércules, etc.  

Esses são apenas alguns exemplos de histórias que relatam a jornada do herói – e o que a torna ainda mais interessante é o fato de ser uma estrutura que não se manifesta apenas na vida dos grandes heróis da humanidade, mas também está presente na narrativa de pessoas comuns. 

Anos mais tarde, o roteirista e consultor de histórias Christopher Vogler pegou a estrutura de Campbell, modernizou-a para o público de hoje e a reduziu a doze etapas em seu livro “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Escritores“. Vogler descreve seu encontro com a jornada do herói da seguinte forma: “Saí em busca dos princípios básicos da narrativa, mas no caminho encontrei algo mais: um conjunto de princípios de vida. Cheguei à convicção de que a Jornada do Herói é nada menos do que um compêndio para a vida, um abrangente manual de instrução na arte de sermos humanos’’. 

Toda história tem começo, meio e fim – e na Jornada do Herói não seria diferente. Apesar de ser uma estrutura que abarca uma variedade infinita, a história de um herói é sempre uma jornada, que sai de um ambiente seguro e banal para se aventurar em um mundo hostil e desconhecido. Essa viagem nem sempre se limita apenas a uma jornada externa, mas também pode ser uma história que leva o herói para uma jornada interior, de descobertas e amadurecimento do coração e do espírito. 

Em toda boa narrativa, o herói passa por diversas transformações, indo de um polo a outro: do desalento à esperança, da tolice ao entendimento, do amor ao ódio, e assim por diante. Mais do que o deslocamento de um lugar para outro, são as jornadas emocionais que prendem a atenção da audiência. Comecemos juntos a adentrar esse mundo de histórias e explorar os doze passos reformulados por Vogler.

1. Mundo Comum

É aqui que conhecemos o nosso herói, antes de sua jornada começar e alheio às aventuras que estão por vir. Se você vai deslocar o personagem para fora do seu ambiente costumeiro, é necessário definir o cenário comum em que ele se encontra, justamente para criar o contraste entre um ambiente “normal” e o estranho mundo novo que ele irá desbravar. 

Para mostrar o herói fora do seu habitat natural, primeiro vai ter que mostrá-lo em seu Mundo Comum, criando-se, assim, uma contraposição entre esses dois universos. São nas particularidades de sua vida cotidiana que aprendemos detalhes cruciais sobre nosso herói, como seu temperamento, suas capacidades e suas perspectivas de vida. Isso ancora o herói como humano, assim como você e eu, e torna mais fácil para nós nos identificarmos com ele e, mais tarde, sermos capazes de ter empatia com sua situação. Nesse estágio, o herói possui consciência limitada de um problema. 

Exemplos de Mundo Comum: 

Na saga “Harry Potter”, Harry é apresentado como um menino comum, que se sente como um peixe fora d’água enquanto é maltratado por uma família banal – os Dursley. Da mesma forma, em “O Mágico de Oz”, acompanhamos a vidinha normal e sem graça de Dorothy, no Kansas, antes que ela seja carregada pelo furacão até o mundo maravilhoso de Oz. Nesse filme, o contraste é realçado pelo fato de que as cenas do Kansas são filmadas em preto e branco, enquanto as cenas em Oz são feitas em technicolor.

2. Chamado à Aventura 

A aventura começa quando o herói recebe um chamado à ação, retirando-o de sua zona de conforto. Nesse estágio, ele geralmente é confrontado por um problema ou desafio que não pode ignorar. Essa situação pode vir por meio de uma ameaça direta à sua família, ao seu modo de vida ou a algum evento capaz de afetar a harmonia em que o herói se encontra. Seja qual for a chamada e a forma como se manifesta, ela se torna um catalisador capaz de interromper o conforto do mundo comum do herói. Aqui o herói começa a expandir sua consciência. 

Em séries policiais, por exemplo, o chamado à aventura é representado por meio do pedido para que o detetive aceite investigar um caso de assassinato e solucione o crime, a fim de trazer de volta à paz de sua comunidade. De acordo com Vogler, o chamado à aventura “estabelece o objetivo do jogo, e deixa claro qual o objetivo do herói: conquistar o tesouro ou o amor, executar vingança ou obter justiça, realizar um sonho, enfrentar um desafio ou mudar uma vida”. 

Exemplos de Chamado à Aventura: 

Quando Harry Potter recebe uma carta e é convidado a estudar em Hogwarts. No filme “Matrix”, o personagem de Neo recebe uma mensagem em um computador orientando-o a seguir o coelho branco.

3. Recusa do Chamado

Embora o herói pareça estar ansioso para aceitar a missão, poderá haver uma hesitação causada pelo medo de enfrentar o desconhecido e, com frequência, isso pode resultar na recusa do chamado ou em uma enorme relutância. Afinal, é uma aventura arriscada e existem perigos no caminho – como aranhas gigantes, trolls ou alguma criatura assustadora. 

Essa também pode ser nossa própria resposta diante do medo do desconhecido e, mais uma vez, essa etapa da narrativa ajuda a nos relacionarmos com o herói e criarmos identificação. Nesse momento, torna-se necessária uma mudança nas circunstâncias: seja sofrer alguma retaliação ou o encorajamento de um Mentor.

Exemplo de Recusa do Chamado: 

Em “Star Wars”, Luke Skywalker inicialmente se recusa a juntar-se a Obi-Wan em sua missão de resgatar a princesa. É apenas quando ele descobre que sua tia e seu tio foram mortos por Stormtroopers que ele muda de ideia.

4. Encontro com o Mentor

Nesse ponto crucial da história, o herói necessita desesperadamente de orientação, e é onde ele encontra um mentor. A relação entre herói e mentor é bastante comum na mitologia – e muito rica em valor simbólico -, podendo o mentor assumir muitas formas: de bruxas a eremitas, de velhos sábios a instrutores de caratê. A função do mentor é preparar o herói, oferecendo-lhe conselhos, orientação ou algum objeto mágico. De toda forma, eles preparam o herói para a próxima etapa. 

Exemplos de Encontro com o Mentor: 

No filme “Matrix”, o personagem de Neo é apresentado a diversas pessoas, mas a Óraculo é aquela que diz a ele o que deve ser feito. Na saga “Harry Potter”, temos Dumbledore como mentor.

5. Travessia do Primeiro Limiar

Agora o herói está pronto e comprometido com a jornada – seja ela física, espiritual ou emocional. Desse ponto em diante, não há mais volta. Como escreve Vogler: “Este é o momento em que o balão sobe, o navio faz-se ao mar, o romance começa, o avião lança voo, a espaçonave é lançada, o trem parte’’. Pode ser que o herói esteja saindo de casa pela primeira vez na vida ou apenas fazendo algo que sempre teve receio de fazer. Independentemente da forma como esse limiar se apresenta, a ação significa o comprometimento do herói com a sua jornada e todas as consequências que ela pode acarretar. 

Exemplos de Travessia do Primeiro Limiar:

Em “Alice no País das Maravilhas”, esse momento ocorre quando Alice entra na toca do coelho. Em “Matrix”, Neo toma a pílula vermelha e entra no mundo real. 

6. Testes, Aliados e Inimigos

Finalmente, o herói encontra-se fora de sua zona de conforto, enfrentando desafios cada vez maiores. Os obstáculos, sejam eles físicos, emocionais ou relacionados a pessoas dispostas a impedirem seu progresso, devem ser superados para que ele chegue ao seu objetivo. Nesse momento, o herói precisa descobrir quem pode ser confiável ou não, suas habilidades e poderes são testados e cada dificuldade que ele enfrenta nos ajuda a ter uma visão mais profunda do personagem, criando ainda mais identificação.

Exemplo de Testes, Aliados e Inimigos: 

Em “O Mágico de Oz”, Dorothy adquire novos companheiros para sua jornada: o Espantalho, Homem de Lata e o Leão Medroso. É quando a personagem faz inimigos e passa por testes. 

7. Aproximação da Caverna Oculta

É a hora em que herói se aproxima ainda mais de seu objetivo. Não se trata de uma caverna física, mas sim de uma “caverna mais interna”, podendo representar um local real em que existe um perigo iminente ou um conflito interno que até agora o herói não precisou enfrentar. Quase sempre, é onde o objetivo final de sua jornada está localizado. É importante notar que não se trata da entrada na caverna, mas sim uma aproximação da mesma, podendo representar um desafio psicológico que antecede o enfrentamento de seu inimigo final.

Exemplo de Aproximação da Caverna Oculta: 

Em “Guerra nas Estrelas”, essa aproximação está representada quando Luke Skywalker é sugado para dentro da Estrela da Morte, onde irá enfrentar Darth Vader e liberar a princesa Leia. 

8. A Provação 

Aqui o protagonista deve enfrentar o seu maior medo ou desafio. Se ele sobreviver, emergirá transformado e poderá finalmente alcançar o título de “herói”. Essa provação pode ser um teste físico intenso ou uma crise existencial, momento no qual deve utilizar as experiências adquiridas ao longo do caminho para superar seu mais árduo desafio. É um dos momentos críticos da história, onde o herói tem que morrer ou parecer morrer, para que assim possa renascer transformado. Nas comédias românticas, por exemplo, essa morte pode ser o fim temporário de uma relação.

Exemplo de Provação:

No filme “E.T.”, o alienígena parece morrer momentaneamente na mesa de operação. Na saga “Harry Potter”, esse é o momento em que Harry finalmente enfrenta Valdemort. 

9. Recompensa

É nesse momento que o herói enxerga uma luz no fim do túnel. Depois de derrotar seu maior inimigo, sobreviver à morte e superar seu maior desafio pessoal, o herói pode colher os frutos. Ele emerge transformado como uma pessoa mais forte e, na maioria das vezes, traz consigo algum prêmio. Essa recompensa pode vir de várias formas: um objeto de grande importância, a resolução de um crime, ou mesmo a reconciliação em um relacionamento.

Exemplos de Recompensa:

Quando Luke Skywalker resgata a princesa Léia e captura os planos da Estrela da Morte – a chave para derrotar Darth Vader. Ou quando Harry Potter encontra a pedra filosofal. 

10. Caminho de Volta

O herói ainda não saiu do mundo estranho e hostil, e a luz do fim do túnel pode estar um pouco mais longe do que o herói pensava. Agora que ele possui sua recompensa, mas precisa enfrentar as consequências de ter-se confrontado com forças obscuras na fase da Provação. É um estágio que marca a decisão de voltar para o Mundo Comum, com a consciência de que ainda há perigos e testes à sua frente. 

Exemplo de Caminho de Volta:

Em “E.T.”, esse caminho é representado pelo voo da bicicleta ao luar, quando precisam fugir de uma autoridade governamental. 

11. Ressurreição

O herói retorna purificado. Vogler se refere a isso como um “exame final” para o herói – ele deve  ser “testado mais uma vez para ver se realmente aprendeu as lições da Provação”. Essa batalha final também pode representar algo muito maior do que a própria existência do herói, já que seus feitos podem alcançar o Mundo Comum e a vida daqueles que estiveram ao lado do herói. Se o herói falhar, outros poderão sofrer as consequências. Se ele sobreviver, poderá retornar à vida comum com um novo entendimento, alcançando um final feliz. 

Exemplo de Ressurreição: 

Para Vogler, os filmes da série Guerra nas Estrelas representam muito bem esse elemento. Segundo ele, “os três filmes da série mostram uma cena final de batalha, em que Luke quase morre, parece estar morto por um momento, e depois sobrevive miraculosamente. Cada nova provação lhe dá mais conhecimento e mais domínio da Força. Sua experiência o transforma em um novo ser’’.

12. Retorno com o Elixir

Esse é o último estágio da Jornada do Herói, no qual retorna para casa transformado. Ele terá amadurecido como pessoa, aprendido muita coisa e enfrentado diversos perigos. Mas esse retorno só tem sentido se ele trouxer consigo um elixir. O elixir pode ser uma poção mágica de cura, um tesouro, ou pode, simplesmente, ser o conhecimento adquirido ao longo dessa jornada, uma sabedoria capaz de causar impactos positivos em sua comunidade. O herói finalmente consegue o domínio final do problema.

Exemplo de Retorno com o Elixir:

Ao dominar a Matrix, Neo é reconhecido com o escolhido e retorna ao mundo real com o propósito de ser líder de uma revolução contra as máquinas. 

É importante lembrar que esse é apenas um esqueleto a ser preenchido com os detalhes individuais de cada história. A ordem dos estágios é apenas uma das variações possíveis para que histórias sejam contadas ao mundo. A estrutura da Jornada do Herói deve ser utilizada com cautela, para que não produza resultados estereotipados. 

Nas palavras de Vogler, os termos da jornada do herói “devem ser usados como uma forma, não uma fórmula, um ponto de referência e uma fonte de inspiração, não uma ordem ditatorial”. A jornada possui elementos com os quais nos identificamos, seja em nossas vidas pessoais, em nossos negócios ou com nossas famílias. Como um contador de histórias, explore esse modelo para enriquecer sua estratégia de marketing, tornando seu produto e marca ainda mais interessantes.

E sempre volte com o elixir.

 

Sara Pinheiro

Historiadora e redatora, presta consultoria de marketing especializada em storytelling e branding. Pode ser contactada no Instagram @saraapinheiro e no e-mail sarapinheirobranding@gmail.com.

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