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A Teoria dos Laços em um mundo de algoritmos

Tudo tem um preço. E a evolução dos algoritmos pode estar saindo mais cara do que suas compras por impulso.

Esses conjuntos de dados responsáveis por customizar o que encontraremos ao adentrar nossas redes sociais parecem seguir um caminho inabalável ao que as Big Techs definiram como sofisticação da “experiência do usuário”.

Não apenas seus contatos frequentes, mas também produtos e serviços mencionados aparecem prontamente ao navegar pelo seu espaço digital. Sem gastar muita energia, nem mesmo para pensar.

Porém, este não é um texto sobre o que se pode poupar. E a razão dessa inferência é a Teoria dos Laços ou teoria de Granovetter. Ela foi publicada na década de 70 pelo professor Mark Granovetter, da Universidade de Stanford, sob o nome de The Strenght Of Weak Ties  no American Journal of Sociology.

Seu objetivo era avaliar como a força dos laços sociais existentes entre pessoas interfere na relação de contato e no compartilhamento de mensagens entre indivíduos.

Naquela década prévia ao surgimento das mídias sociais, a maioria dos modelos de rede – do ponto de vista sociológico – lidavam, implicitamente, com laços fortes, limitando assim sua aplicabilidade a grupos pequenos e bem definidos. A ênfase em laços fracos abre espaço à discussão de relações entre grupos e à análise de segmentos da estrutura social não facilmente definidos em termos de grupos primários como a família e amigos próximos.

De acordo com Granovetter existem dois tipos de conexões possíveis entre grupos de seres humanos, são eles:

Laços Fortes: São estabelecidos com pessoas próximas e que compartilham das nossas visões e valores. Quando nascemos esse grupo é restrito à nossa família, depois ele aumenta e tangencia grupos sociais da escola, trabalho e afinidades. Veja um exemplo prático: uma professora que se interessa por educação, dá aulas e está dentro de uma universidade acaba conhecendo pessoas desse segmento. Dificilmente ela teria a oportunidade de conviver com as mesmas pessoas se sua carreira acontecesse apenas na esfera corporativa. Não são apenas os marqueteiros que usam diversos termos em inglês. A sociologia chama esse conjunto de pessoas com várias características semelhantes de clusters.

Laços Fracos: São estabelecidos com outras pessoas com as quais temos poucos assuntos em comum mas que cruzam o nosso caminho. O que Granovetter constatou é que são justamente esses laços fracos que mais nos conectam com outras realidades, oportunidades e novos fatores para inovação. Para demonstrar isso, ele criou um modelo matemático inspirado na estrutura neural de organismos inteligentes e que adquirem conhecimento por meio da experiência.

Os nossos laços fracos aumentaram consideravelmente com o advento das redes sociais, bem como nossa capacidade de armazená-los. Os círculos sociais para os quais podemos olhar aumentaram, mas a maneira que os algoritmos são atualizados têm “limpado” pessoas com as quais temos pouca interação do nosso convívio digital.

Quer um exemplo prático? Veja as eleições 2018 no Brasil. Esse é motivo pelo qual você tendia a ver muitos comentários pró o seu candidato no feed. Quanto mais você engajava com eles, mais o algoritmo entendia que aquelas publicações eram relevantes e as mostrava para você, gerando assim uma certa miopia sobre a opinião política do mundo.

Outro ponto interessante do estudo é que cada indivíduo tem um fator de ebulição, uma tolerância chamada de Treshold. Ou seja, movimentos de mudança de comportamento são desencadeados no momento no qual o ponto de ebulição individual é ultrapassado, gerando assim um efeito dominó na sua rede. Sabe quando você está no aeroporto, naquelas filas monstruosas, e basta uma pessoa reclamar para outras começarem? Voilà, isso é um Treshold.

E veja que interessante: quanto mais eclética for a sua rede de laços fortes e fracos, maior a diversidade de “pontos de ebulição” por tema, maior a difusão e redundância da pauta, bem como a capacidade de mobilização de diferentes grupos.

Isso ajuda a explicar como uma manifestação de grupos sociais heterogêneos acontece. Vide o advento da primavera árabe que foi organizado em grupos de Facebook em 2010.

O benefício de conviver com quem nos enriquece intelectualmente está ao nosso alcance, e pós pandemia está mais próximo do que imaginamos, visto que muitas pessoas e negócios foram obrigados a construir presença digital.

Isto posto, como fazer pra não perder a riqueza dos laços fracos em meio às atualizações do algoritmo? Recomendo ler fontes de informações diferentes e confiáveis, ter por perto pessoas diversas e valorizar esse canal que desenterra estudos do passado para entendermos o presente.

Quer saber mais sobre a teoria dos laços? Acesse o estudo na íntegra (em inglês) aqui.

Manuela Ponfick

Manuela Ponfick é graduada em comunicação social com ênfase em publicidade e propaganda pela escola superior de propaganda e marketing e possui mais de 10 anos de experiência trabalhando com comunicação e estratégia digital em empresas do segmento de tecnologia, varejo e startups. É membro da comunidade ZeroOnze Startups de São Paulo, fundadora e estrategista digital na Soulcomm, agência na qual trabalha com marcas consolidadas como Unilever e Intelipost, e lançamentos.

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