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Uma mistura explosiva: síndrome do impostor e redes sociais

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Embora seja o início de uma carta aberta feita pela YouTuber Zoe Sugg, é uma frase extremamente comum nas redes sociais.

De acordo com a Harvard Business Review (HBR), a síndrome do impostor pode ser definida como um conjunto de sentimentos de inadequação, que persistem apesar de todo sucesso evidente; insegurança crônica somada à sensação de fraude intelectual são dois dos sintomas que a universidade americana identifica como capazes de eclipsar quaisquer outras demonstrações de sucesso e de conquista.

Ao contrário do que muitos imaginam, a síndrome do impostor não se trata de baixa auto-estima, ou falta de autoconfiança, mas, de acordo com a psicóloga clínica Dra. Ellen Hendriksen, escrevendo para a Scientific American: “Ela atinge indivíduos inteligentes e bem-sucedidos.” — está associada diretamente ao perfeccionismo, à insegurança e à sensação de fraude. Na verdade, o sucesso conquistado é condição sine qua non do problema, pois que as pessoas nessa condição são assaltadas por um medo repentino de terem conquistado uma posição para a qual não estão preparadas e que serem descobertas é apenas uma questão de tempo.

Ainda de acordo com a Dra. Hendriksen, cerca de duas em cada três mulheres haverão de sofrer com essa síndrome, e cerca de 56% dos homens também. A principal causa desses valores, tal qual dito pela psicóloga, está associada ao processo de formação das crianças e à própria dinâmica familiar. Em conformidade com a pesquisa levantada pela Universidade de Harvard, os rótulos que os pais das crianças conferem a elas é capaz de afetar-lhes o comportamento futuro — por exemplo, um dos filhos é taxado de inteligente; enquanto o outro, de sensível —, em uma espécie de viés de confirmação. O apoio e a proteção excessivos também são capazes de criar na criança a sensação de que seja perfeita, superior, e inerrante.

Nesse sentido, em 1978, em um artigo na Georgia State University, afirmam a Dra. Pauline R. Clance, e Suzanne Imes:

Apesar das notáveis realizações acadêmicas e profissionais, as mulheres que vivenciam a síndrome do impostor persistem em acreditar que realmente não são brilhantes e enganam quem pensa o contrário. Essas mulheres encontram inúmeros meios de negar qualquer evidência externa que contradiga sua crença de que são, na realidade, pouco inteligentes

Porém, quando Clance e Imes descreveram pela primeira vez o fenômeno do impostor, pensaram em se tratar de um comportamento exclusivamente feminino. Desde então, uma variedade de pesquisas sobre o assunto revelou que os homens também podem ter a experiência parecida de se sentir como uma fraude, de acordo com a revisão feita, em 2011, pela International Journal of Behavioral Sciences, 2011.

Muitas pessoas que se sentem impostores cresceram em famílias que davam grande ênfase às realizações", diz Imes, em entrevista à American Psychological Association (APA). Conforme a associação americana: "os pais que enviam mensagens confusas - alternando entre elogios e críticas - podem aumentar o risco de sentimentos fraudulentos no futuro. As pressões sociais apenas aumentam o problema

De acordo com a pesquisadora: “Em nossa sociedade, há uma enorme pressão pela conquista. Pode haver muita confusão entre aprovação, amor e dignidade. A auto-estima torna-se dependente da realização”. Os portadores da síndrome sentem que devem trabalhar mais do que o normal para compensarem alguma falta, e evitarem ser “descobertos”; muitas vezes, também, apresentam a tendência de assumirem cargos mais baixos para permanecerem “fora do radar”.

John Gravois, em reportagem ao Chronicle em 2007, concluiu que cerca de 70% das pessoas experimentam essa síndrome em algum momento de suas carreiras.

Relação com as redes sociais

A questão agora se torna: como a síndrome do impostor se relaciona diretamente com as redes sociais?

Em uma primeira análise, o diagnóstico pode parecer simples e imediato: as redes sociais vendem uma ilusão; o influenciador só se interessa em mostrar aquilo que possui de melhor, vende um estilo de vida, sucessos e conquistas, realizações e uma marca pessoal atraente. Ao contrastarem a própria vida com aquilo que vêem na internet, as pessoas passam a se sentir incompetentes, incapazes ou inadequadas, cria-se um hiato entre a realidade concreta e a imagem vendida online — deturpando-se o senso de normalidade e de proporção, portanto.

No entanto, quase sempre, a profundidade de uma análise é inversamente proporcional à sua velocidade. Tanto mais simplórias tendem a ser as soluções quanto mais apressadas forem. Embora o diagnóstico precedente tenha a sua carga de verdade, está incompleto, se tanto.

As redes sociais, de uma forma sucinta, funcionam através de uma mimetização dos desejos — para usarmos uma terminologia proposta pelo pensador francês René Girard —: através, por exemplo, do Instagram, é possível estruturar uma linha editorial que, por meio do constante diálogo com a audiência, seja capaz de revelar os gostos e preferências do influenciador, pois, ao mostrar este ou aquele aspecto da própria vida, também entrega aquilo que é objeto do seu desejo; o público, por sua vez, tende a imitar aquele desejo que foi, em sua essência, emprestado do comunicador.

E eis o ponto: o sentimento de falsidade causado pelo fenômeno do impostor é originado diretamente do empréstimo de um desejo alheio — a farsa é consequência do reconhecimento, por parte do portador da síndrome, de que seu desejo não é único, mas imitado, em uma espécie de rebeldia metafísica —; a crise, então, agrava-se pelo simples fato de que a imitação é, em si mesma, inevitável, e o ciclo recomeça feito uma profecia autorrealizável.

Além de uma tentativa de aprofundar essa questão, o conceito proposto por Girard concorda com os apontamentos feito por pesquisadores; conforme o site “re:Work”: a síndrome do impostor não é um traço de personalidade; antes, é classificado como um estado emocional que pode, portanto, ir e vir ao longo do tempo.

Tal qual dito pela Dra. Hendriksen, e, conforme artigo escrito por Shamala Kumar e Carolyn Jagacinski, a síndrome está associada não apenas ao perfeccionismo e ao estado de medo, mas também é mais comum em culturas de alta produtividade. O fato mesmo de haver uma cultura mais conectada na internet e, então, com mais casos de sucesso, permite uma proliferação de modelos que podem ser imitados — o desejo mimético identificado por Girard encontra, podemos dizer, menos barreiras.

Isso, no entanto, não significa que é um caminho sem saída: o reconhecimento do desejo mimético carrega consigo sua própria solução. Reconhecendo-se que todos os desejos são imitativos pela própria natureza, o sujeito toma posse sobre eles; tal qual um exorcismo, dar nome àquilo que antes estava oculto é capaz de dar poder sobre a coisa mesma. Em última análise, admitir a existência do desejo emprestado torna possível canalizá-lo de forma consciente.

Rodrigo Veiga

Estuda engenharia aeronáutica no ITA, e atua como redator e copywriter n'O Novo Mercado

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