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O mercado está saturado?

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Surge o Clubhouse. Quem chega primeiro bebe água limpa, dizem. Salas e mais salas discutindo a respeito de crescimento exponencial, startups, e sobre como aproveitar a novidade para conquistar seguidores o mais rápido possível. O que fazemos? Ora, não somos bobos, vamos ouvir o que os grandes “players” do mercado têm a dizer. Afinal de contas, o segredo está no próximo livro, no próximo curso, na próxima palestra; faltam mentorias e salas de discussões.

De repente, todos estavam falando sobre copywriting, coprodução, gestão de tráfego, lançamento e desafio; falavam, enfim, sobre qualquer coisa que você pudesse fazer para ganhar dinheiro na internet. E, tão logo esses novos termos entram na linguagem, digamos, mais popular, surge a pergunta: o mercado já não está saturado?

Não importa se você trabalha no digital, se é psicólogo, economista, nutricionista, treinador físico ou advogado, saber se o mercado já está ou não abarrotado de gente nova sempre volta a assombrar a imaginação de quase todos.

Não demora mais do que cinco minutos para encontrarmos a resposta: para quem é bom, novas oportunidades surgem a todo instante; entregue o que promete, dentro do prazo, a um preço justo que sua agenda estará lotada. Poderíamos, então, dar-nos por satisfeitos. Ora, basta que sejamos profissionais valiosos.

Pois bem, queremos nos destacar no Instagram, mas o que podemos fazer para inovar? Não se engane: leva um certo tempo para que você aprenda a transmitir sua personalidade através da sua comunicação e, com isso, reconhecer e criar demanda na sua audiência.

Quase sempre, sentimos que estamos tateando um quarto escuro em busca daquilo que será nosso ponto de virada. Nada surge aos olhos, e somente uma vaga noção do que pode ou não ser feito vem à mente.

Como surgem as inovações?

A resposta, embora seja simples, não é tão intuitiva quanto se pensa. As inovações, quase sempre, acontecem quando você busca por alguma coisa que sabe, mas que, no meio do caminho encontra algo que não sabia.

Curiosamente, mudar a estrutura — ou, como dizem, o “framework” — que usamos para pensar pode auxiliar na nossa busca por sucesso online. Vejamos dois exemplos famosos do que estou tentando explicar aqui:

Alexander Fleming descobriu a ação antibacteriana da penicilina depois de ter percebido que o fungo “penicillium” contaminou algumas das suas amostras. Creio que não seja necessário comentar a respeito da importância dessa descoberta para a medicina.

Arno Penzias e Robert Wilson perceberam uma interferência — algo próximo a um chiado — nas antenas do Bell Labs. Havia algo estranho ali, e os dois pesquisadores tentaram eliminar de todas as formas aquele ruído que comprometia seus experimentos. Não conseguiram, e até cogitaram que excremento de pássaros poderia ser a causa das suas frustrações; passou-se um certo tempo até concluírem que aqueles chiados nada mais eram do que rastros de uma grande explosão nos primórdios do Universo.

Ao final das contas, os dois cientistas descobriram aquilo que hoje chamamos de radiação cósmica de fundo em micro-ondas — uma das mais importantes descobertas da física do século XX, e que contribui para a hipótese do Big Bang. Ambos ganharam o prêmio Nobel de física em 1978.

Percebam que nas duas descobertas houve um elemento de acaso envolvido. Foram, podemos dizer, totalmente imprevisíveis; mas, cuidado: ninguém tropeça em uma descoberta científica. Lembremos de Louis Pasteaur quando disse que “a sorte favorece os preparados”.

Tantos casos assim o foram na história da ciência, que esse processo ganhou o nome de serendipidade.

Arquimedes chegou a um dos princípios fundamentais da hidrostática depois que entrou numa banheira segurando a coroa do rei; Kakulé chegou a uma proposta da estrutura do benzeno depois de sonhar com uma cobra que mordia o próprio rabo — ou, como normalmente é conhecida, Ouroboros –; Galvani, por sua vez, descobriu a bioeletricidade depois que um assistente seu tocou acidentalmente no nervo ciático de uma rã com uma ferramenta metálica.

Bom, da tese de que ideias e inovações envolvem algo de fortuito, podemos dizer que são totalmente imprevisíveis, certo? Talvez seja melhor abandonar qualquer tipo de previsão, e deixemos ao acaso dar as cartas do jogo.

Economistas, antropólogos, biólogos e engenheiros se recusaram a dar-se por vencidos. Uma série de modelos para explicar o processo de inovação foram criados, e não demorou muito para descobrirem que havia um padrão ali em meio ao caos. A primeira explicação para isso surgiu com o teórico da complexidade Stuart Kauffmann.

O possível adjacente

Kauffmann criou a ideia do possível adjacente como uma forma de pensar a respeito da biologia evolucionária. O possível adjacente são todas essas coisas — ideias, palavras, músicas, moléculas, genomas ou tecnologias — que estão a um passo de distância daquilo que atualmente existe. A proposta de Kauffmann une as realizações de um fenômeno qualquer ao espaço de possibilidades ainda inexploradas.

Vittorio Loreto, da Universidade de Roma “La Sapienza” propôs o seguinte modelo para melhor visualizarmos as ideias de Kauffmann: preencha uma urna com bolas de diferentes cores. Faça um saque e verifique a cor da bola que você pegou; se aquela cor já houver sido vista antes, um determinado número de bolas com a mesma cor deve ser adicionado à urna; caso contrário, um outro número de bolas com cores aleatórias é que deve ser adicionado ao recipiente.

Muito bem: se tomarmos uma cor como uma determinada descoberta, perceberemos que certas ideias aumentam a chance de mais ideias do mesmo tipo; enquanto outras são responsáveis por mudar todo cenário anterior, criando novas combinações e alterando as possibilidades de descobertas futuras.

Esse modelo conseguiu ser preciso a tal ponto que foi capaz de explicar o surgimento de novas páginas no Wikipedia, ou de como novas tags surgem em alguma rede social, ou até como as pessoas descobrem novas músicas em catálogos online, tal qual o Spotify.

Perceba que existem duas formas de descoberta: temos aquelas que já existem, mas são novas para o indivíduo que as encontra — feito as músicas online –; e temos aquelas que nunca existiram antes, e que portanto são totalmente novas para o mundo — tal qual as tags que surgem no Instagram.

Veja essa imagem: os círculos cinzas representam o conjunto de conhecimentos já visitados por uma pessoa — ou seja: aquelas ideias que ela já conhece, ou habilidades que já possui –; os círculos brancos, por sua vez, são aqueles ainda não visitados. Note que da imagem (a) para a (b) um círculo até então branco foi visitado — tornando-se cinza, portanto –, e novos círculos brancos adjacentes surgiram; estes, por sua vez, criaram novas conexões com círculos já antigos. O que isso significa?

Cada nova ideia, ou, se você preferir, cada nova habilidade adquirida, cria relações inesperadas com conhecimentos ou habilidades antigos.

Fechando a conta

Agora fechamos a conta, voltemos para a questão do mercado estar ou não saturado.

Se você estiver atento, vai lembrar que as pessoas perguntam-se se este ou mercado já está lotado quando alguns termos novos parecem compor o vocabulário comum — afinal, vemos cada vez mais gente entendendo a importância do storytelling, do copywriting, do design e da gestão de tráfego, e da coprodução, por exemplo.

Ora, acabamos de criar um modelo para entender esse processo. Conforme o conhecimento vai se alastrando e tornando-se progressivamente mais comum, novos círculos brancos adjacentes surgem. O problema, claro, é que eles são invisíveis num primeiro momento.

Se você entendeu o que eu disse, deve ter percebido que estes novos círculos brancos até então inexplorados criaram conexões com círculos já antigos e conhecidos por todos.

A questão é: como você consegue acessar esses novos círculos brancos? Aqui entram dois elementos que, embora distintos, são inseparáveis um do outro, e dizem respeito à criação de um monopólio pessoal, onde você pode se tornar único em seu respectivo nicho. No entanto, a primeira coisa que você precisa entender a partir disso é que deve fazer com que o tempo jogue a seu favor; tanto mais conexões existirão — e isso significa mais possibilidades — quanto mais você sobreviver neste mercado. O jogo da internet não é tanto de acerto, mas de sobrevivência. E vence quem sobrevive por mais tempo.

Tudo isso serviu para  começarmos a criar um primeiro modelo mental para as redes sociais. No seu devido tempo, este modelo vai amadurecer, e começaremos a criar uma visão um pouco mais concreta de como você pode se beneficiar dessa espécie de geometria — ou, se preferir, topologia — do mundo digital.

Rodrigo Veiga

Estuda engenharia aeronáutica no ITA, e atua como redator e copywriter n'O Novo Mercado

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