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Que tal participar de conversas ao vivo com personalidades como Oprah Winfrey, Mark Zuckerberg e Drake? O que antes poderia soar como um sonho distante, se tornou realidade com a chegada do Clubhouse. Nas últimas semanas, grandes pensadores, comediantes e até gurus de relacionamento se inscreveram no aplicativo que, a julgar pelo “barulho” que tem causado, promete ser o futuro das redes sociais.

Como funciona o Clubhouse?

Se você já passou dos trinta, certamente se lembra das salas de bate-papo do Uol, quando a Internet ainda era um luxo e a maioria de nós não tinha ideia do seu potencial. Duas décadas depois, o Clubhouse tem sido considerado por muitos uma versão contemporânea dos antigos chats.

O aplicativo promove debates ao vivo, em áudio, em salas divididas por temas, onde amigos e estranhos podem se reunir. Basta olhar o “cardápio” das conversas que estão rolando no momento e entrar na sala que mais te agrada, para ouvir moderadores e convidados conversarem sobre os mais variados assuntos.

O Clubhouse nasceu há cerca de um ano no Vale do Silício, berço da tecnologia mundial, mas só começou a chamar a atenção do planeta no fim de janeiro, quando o fundador da Tesla, Elon Musk, passou a utilizar a plataforma. Mais de oito milhões de pessoas já baixaram o aplicativo ao redor do mundo.

“O diferencial do Clubhouse é o que chamo de ‘mito acessível’, isto é, uma plataforma que permite que qualquer pessoa possa estar no mesmo ambiente e entrar em contato com outras que aparentemente são inacessíveis, como celebridades e grandes profissionais de diversas áreas. Se sentir parte da conversa e ter a possibilidade de fazer perguntas em tempo real é encantador”, diz  Jean Rosier, cofundador e professor da escola de negócios Sputnik.

Para Rosier, o sucesso meteórico da plataforma se explica também pelo formato novo e pouco óbvio. “Quando entrei pela primeira vez no Clubhouse, fiquei encantado, principalmente porque não estava entendendo como funcionava, não sabia mexer. A maioria das redes sociais segue a mesma lógica: se cadastrar, seguir e curtir os amigos, compartilhar fotos ou pensamentos e ganhar curtidas. No Clubhouse, o formato é diferente, a sensação é de cair de paraquedas em um jogo que já começou”, diz.

Um app popular, mas nem tanto

As salas do Clubhouse têm capacidade para até cinco mil ouvintes, e trazem para o público debates que vão desde astrologia amadora até mercado financeiro, passando por discussões sobre profissões, política e tecnologia.  Apesar do enorme número de downloads nos últimos dias, o aplicativo tem gerado polêmica por ser considerado “elitista”. As críticas têm fundamento: para fazer parte da rede, você precisa ser convidado por alguém que já é membro.

Além disso, até segunda ordem, o app está disponível apenas para iOS, o sistema operacional dos iPhones. Em um país como o Brasil, onde, de acordo com um relatório do Google, nove em cada dez celulares rodam com Android, o acesso ao Clubhouse ainda é um “privilégio”.

Rosier explica que o uso de convites para ingressar no app é interessante em uma fase inicial, de testes, mas que, depois, pode contribuir para aumentar a ansiedade das pessoas que ficam de fora. Ele também diz que focar apenas em usuários de iPhone neste primeiro momento faz parte de uma estratégia de escassez. “Apesar de entender essa prática, sou contra. Empresas, plataformas e redes sociais que fomentam a sensação de exclusão não ajudam a construir um mundo mais acessível”.

Há poucos dias, o cofundador do Clubhouse, Paul Davison, afirmou que o principal foco da empresa atualmente é o desenvolvimento de uma versão para Android, mas ainda não se sabe quando o recurso estará disponível. “Se o aplicativo pensa em ter uma atuação ainda mais forte no Brasil, incluir o Android é uma obrigação. E espero que não demore, porque ‘elitizar’ a plataforma vai contra todos os movimentos sociais que temos presenciado”, afirma Rosier.

Outra característica do aplicativo que tem sido alvo de críticas é a falta de acessibilidade. Como funciona apenas por áudio e não permite o envio de mídias em outros formatos, como texto ou foto, o Clubhouse acaba deixando de fora pessoas que possuem alguma deficiência auditiva. A empresa afirmou que pretende trabalhar nisso nas próximas atualizações do app, mas que será preciso paciência para aguardar os resultados.

O dilema da privacidade

A segurança das informações compartilhadas no Clubhouse também tem sido motivo de preocupação. De acordo com a empresa, todas as conversas são gravadas para caso haja necessidade de investigar abusos e aplicar possíveis punições a usuários, mas são apagadas após um curto período. 

As pessoas nas salas não podem gravar ou transcrever o conteúdo dos chats. O objetivo é que eles sejam temporários, e que não exista a possibilidade de consultá-los depois. O problema é que, apesar das regras, fragmentos e até mesmo conversas inteiras já vazaram. A divulgação dos conteúdos desagradou usuários, especialmente aqueles que trabalham com investimentos e tecnologia, e que normalmente desejam ter conversas mais privadas.

O Clubhouse já foi bloqueado pelo governo da China, onde o app era usado para discutir questões políticas e sociais. Enquanto isso, nos Estados Unidos, gigantes como Twitter e Facebook já estão correndo atrás para construir plataformas semelhantes. Pelo menos 25 empresas de tecnologia estão desenhando concorrentes, e a expectativa é que esse número continue crescendo ao longo do ano.

A voz do futuro

Tudo indica que o surgimento do Clubhouse marca o início de uma disputa que vai moldar o futuro das redes sociais. Assim como aconteceu com o Twitter – que revolucionou a forma como publicamos textos -; o Clubhouse pode consolidar a disrupção entre as mídias de áudio deflagrada pelos podcasts e por serviços de streaming, como Spotify e Deezer.

O acesso a grandes personalidades e o caráter de exclusividade são, sem dúvidas, alguns dos fatores que ajudam a explicar o fenômeno do Clubhouse. Mas, nessa fórmula do sucesso, também é importante levar em conta um outro elemento: a pandemia. Em tempos de isolamento, qualquer novidade que ajude a espantar o tédio é bem-vinda, mas é possível que as atividades no app diminuam à medida que as restrições à circulação comecem a regredir.

Quem aposta no sucesso do Clubhouse a longo prazo, concentra-se em outra característica: o formato diferenciado do seu conteúdo. Com salas abertas e sem necessidade de interação, o aplicativo pode ser acessado enquanto você dirige ou lava a louça, por exemplo. A espontaneidade das conversas ao vivo é a “cereja do bolo”, e torna os debates ainda mais atraentes.

A plataforma também já é vista como aliada por quem deseja impulsionar seus negócios, afinal, tudo que envolve o compartilhamento de ideias pode ser usado como ferramenta para fomentar o empreendedorismo. “Quando se tem audiência e conteúdo, basta incluir um produto no final dessa cadência e pronto, você tem um business. Se você estiver entregando um material relevante, seja em qual for a plataforma, isso se torna, sim, uma oportunidade de empreender, vender, conquistar mais clientes ou ganhar relevância e ser reconhecido pelo que faz”, diz Rosier. Algumas pessoas já especulam, inclusive, que empreendedores e o próprio Clubhouse podem monetizar suas operações criando salas de discussão pagas.

A batalha pelo tempo e pela atenção do público, que já não era simples, deve ficar ainda mais acirrada com a chegada da nova rede social. “Se o Clubhouse conseguir preencher um espaço vazio do tempo das pessoas e entregar relevância, esse sucesso tem tudo para durar. Tudo depende de como as pessoas serão estimuladas a distribuir e consumir conteúdo por lá, afinal, se não tiver usuários ativos, a plataforma por si só não existe”, conclui Rosier.

Luiza Bravo

Luiza Bravo é jornalista. Já trabalhou nas maiores redações do país, escrevendo sobre política e economia, com criação de conteúdo e assessoria de imprensa. Hoje, se divide entre muitos roteiros de documentários, e vive em busca de uma boa história para contar.

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